Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

O ano de 2011 foi violento em mudanças. O Governo renovou-se. O último irmão casou-se e de repente as cabecinhas viraram todas para mim, com aquele olhar abelhudo. Quando já estava confortável mudaram-me as funções no trabalho – “toma lá e aprende tudo outra vez, chica-esperta”. Só me apetece ficar na cama, em posição fetal, a hiperventilar. E a rogar pragas ao conluio kármico que parece querer transformar tudo o que tinha como garantido. Será que é um truque para nunca me deixar assentar?

É que cada vez que acontece uma mudança fracturante (borrifemos no Governo, falemos de família, amigos, casamentos, filhos) parece que as coisas nunca mais vão ser as mesmas. Ou melhor, que nós vamos ficar iguais, e que o tempo vai passar por nós sem levar o desconforto da mudança.

Quando a minha família se desmembrou – por razões boas e menos boas – lembro-me de sofrer porque nunca mais íamos ter o verdadeiro almoço espontâneo em família, daqueles seguidos de coçanço da micose em frente à parvónia televisiva de domingo à tarde. Sem qualquer noção das horas e dos compromissos, porque não havia uma “outra vida” para a qual voltar. Agora, os almoços em família implicam uma logística digna de CEO, uma mobilização delicada de várias coordenadas temporais e geográficas – “só posso chegar às X horas”, “traz a chucha da X” “Olha que a X não come carne” – como se morássemos todos tão longe como o meu irmão João Paulo, em Singapura (ás vezes até é mais fácil combinar com ele, que vem certo e sabido naquelas datas, sim ou sim).

O mesmo acontece com os amigos, que naturalmente se vão encerrando em vidas mais casadas do que solteiras, viradas para si e para a sua dinâmica doméstica. As discussões com eles deixam de ser sobre planos mirabolantes para a vida e passam a ser sobre bimbys (que também tem o seu quê de mirabolante, convenhamos). E eles são as mesmas pessoas, só que num enquadramento diferente àquele original, que nos incluía no centro. E nós, egocêntricos e lélés da cuca, sentimo-nos como aquele personagem do filme sobre o qual o tempo passa a correr e ele continua igual, em câmara lenta.

É violento, porque parece que nos estão a roubar o conforto da habituação e o quentinho das expectativas cumpridas. Custa-me pensar que as coisas nunca mais vão ser as mesmas e que cada enquadramento realmente nunca se repete; e quando está a acontecer estamos demasiado ocupados para lhe dar valor. É como ter piscina em casa e nunca botar lá o dedão do pé (no tanque do vizinho é que é!). Mas acho que a mudança existe para isso mesmo: manter-nos de pestana aberta, em constante mutação, sem nunca nos deixar acomodar e assumir pessoas ou momentos como garantidos.

No momento, é como um rotativo no céu da boca, abala que nem sovas, but then again…só dói porque houve uma vida saudável em família ou porque o grupo de amigos foi unido e marcante, caso contrário nem dávamos por ela, já que nunca houve o conforto da habituação.

É muito, muito melhor conviver com a mudança do que nunca ter vivido com o hábito.

Eu acho, mas eu sou egocêntrica e lélé da cuca.

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