Uma barata no sofá

Isto podia ser o título de um conto de crianças mas não é. Ontem cheguei a casa e tinha uma gigantesca barata no meu sofá. Alegremente sentada no MEU lugar habitual.

Malta, eu até gosto de bicharada. Gosto de traças, brinco com osgas, simpatizo com centopeias, apanho as aranhas pelas patas, diria que no geral até sou bastante Mogli a lidar com a Natureza.

Mas quem me conhece sabe que poucas coisas me tiram mais do sério que uma barata tamanho XL.
Aquela carapaça estaladiça, aquele pantone castanho-envernizado, aquelas patitas ágeis experientes em escalada, aquelas antenas enormes a apanhar os 4 canais generalistas.
Fiquei possuída de nojo.
Reagi com aquele histerismo de quem de repente se lembra que está a pisar um chão de lava e em menos de 3 segundos já tinha perdido a minha dignidade a dar saltinhos enojados e guinchos de “ai que nojo” num décibel que faria inveja à minha avó.

Há um fenómeno curioso que acontece quando o pânico nos impede de pensar racionalmente, que é concluirmos de uma assentada uma série de coisas estúpidas: a primeira é que se está ali uma barata é porque o chão todo deve estar contaminado com famílias inteiras de baratonas assassinas, haverá de certeza ninhos escondidos nos canos, uma barata-mãe do tamanho de um melão a reproduzir-se algures, e é um tirinho até começarem a sair pragas infinitas da parede tipo Jumanji.
A segunda é que a partir deste avistamento qualquer comichão nas pernas é uma barata a subir. Qualquer cabelo a roçar no pescoço é um ataque concertado de baratas ninjas.

Respirei fundo e alcancei o meu sapato enquanto ela ainda estava estática. Arrependi-me logo porque depois não queria pousar o pé descalço no chão contaminado, e se já é difícil matar baratas num dia normal, vão lá tentar matá-las ao pé-coxinho.

E o pior é que se não somos logo certeiros na sapatada sabemos que aquele estupor vai desatar a correr de forma desvairada em todas as direcções, a uma velocidade que o comum mortal não consegue acompanhar.
Engoli em seco.
Ganhei balanço cá de trás e dei-lhe uma trolitada com tal violência que acertou mais ou menos ao lado na almofada do sofá e ela foi projetada tipo trampolim e voou pelos ares (nem ela sabia que conseguia voar) até se escapar para debaixo do sofá, enquanto eu fugia aos guinchos para cima de uma cadeira.

A suar do bigode, fui buscar a lata de insecticida, o nojo a dar lugar a uma raiva maior, aponto com a lanterna do telemóvel, rabo para o ar a perscrutar debaixo do sofá, encontro a vacôncia escondida atrás de uma das pernas do sofá, concentro-me, faço pontaria com o spray…
O que se seguiu foi um momento épico muito semelhante ao “Freeeeedoooom” do Braveheart, em que palavra de honra que estive cerca de 45 segundos non-stop a disparar o spray em todas as direcções, um desejo de vingança (e o cheiro tóxico, talvez) a cegar-me os olhos, já nem via barata em lado nenhum mas continuei a carregar com toda a força por muito mais tempo do que o necessário, e de repente aquilo parou de deitar, e foi quando percebi que já tinha gasto uma lata inteirinha de Dum Dum com aquele estupor.

O ar ficou irrespirável, claro. “Vou abrir a janela” pensei eu, mas rapidamente mudei de ideias porque esta bicharada cheira os defuntos e dali a nada tinha a família inteira à porta, e eu sem Dum Dum.
Perdi o estupor de vista, fiquei a pensar se já teria morrido o suficiente ou se ainda teria força para se arrastar para o meu quarto só para me atormentar.
Pelo sim pelo não, fiz uma muralha de t-shirts velhas a tapar as brechas da porta.
Dormi em ansiedade.
Hoje de manhã ainda se fazia sentir o pivete a Dum Dum e fui dar com o estupor de perninhas para o ar no chão da sala, últimos segundos de vida, a mexer-se em câmara lenta.
Deixei-a sofrer. Que é para verem a menina que aqui está.
Estou a brincar, simplesmente tive nojo de a apanhar.
Deixei o trabalho de coveiro para outra pessoa, que eu já passei por muito.
Cerquei-a num tupperware ao contrário que nunca mais vou usar.

Neste momento já estou a 15 km de distância e não sei porquê ainda tenho uma ansiedade miudinha.

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