Sobre ser forreta.

Consigo compreender o que está por trás do egoísmo.
Consigo entender que são inseguranças que geram a inveja e o ciúme.
Até consigo entender a mentira.
Mas, palavra de honra, há poucos defeitos que compreenda menos que o ser forreta.

Não numa escala de gravidade, porque até ver não sei de ninguém que tenha morrido vítima de forretice, mas numa escala de incompreensão pura da psique que leva alguém a ser forreta.

Ser forreta é viver na ilusão de que não se está a gastar dinheiro em prol de algum plano maior que nunca chega a existir.
Está-se a poupar para viajar, mas faz-se uma viagem de pé descalço para poupar para a casa, mas poupa-se na escolha da casa porque é preciso pensar na reforma. E na reforma acontece uma de duas coisas: ou se continua a “poupar” para o after-life, ou se chega ao fim da vida com um enorme dote… de arrependimentos. Mas um porquinho mealheiro intacto, e uma auto-satisfação bestial com isso, graças a Deus.

Eu forreta não sou. Tenho uma vastíssima lista de outros defeitos. Mas se fosse acho que me ia deixar piursa a ideia de, no final, não ter gasto um tusto do meu dinheiro comigo e com os meus, porque entretanto faleci e não há dinheiro que compre a ressurreição (e mesmo se houvesse eles iam achar caro e querer negociar.)
Nada contra em deixar dinheiro para a descendência, a questão é que por esta altura ela já terá vivido grande parte dos momentos importantes da vida numa situação de privação, adivinhe-se, imposta pelo forreta da família.

O que encanita mais nos forretas é que das duas uma: ou eles simplesmente decidem privar-se da experiência para não gastarem dinheiro – e tudo bem, isso é com eles – ou então decidem gastar mas temos de levar com uma análise obsessiva antes, durante e depois do momento, sobre se está a valer a pena ou não – “Este bife não valia o gasto” “12€ de táxi?! Bem disse que devíamos ter ido a pé, eram só 17km” “Ok, Machu Picchu é basicamente o Gerês mas por 1200 euros” – contribuindo assim para uma experiência um bocadinho mais cocó não só para eles, mas para todos.

Ressalva para os defensores da moral no turno da tarde: não estou a falar de pessoas que não podem gastar, nem de pessoas à rasca de massas, nem de pessoas financeiramente responsáveis. Não sou, obviamente, apologista do esbanjar (apesar de ter jogado 4 bisgas no euromilhões para ver se começo a ser).
Estou a falar da verdadeira acepção da palavra “forreta”: do poder e não gastar, do ter discussões cataclísmicas por meia dúzia de cêntimos (“quem não comeu couvert põe a mão no ar!”), do não ligar o aquecimento da sala porque “é uma fortuna”, do ir lá ter depois do jantar para não gastar, do viajar e negociar até à morte o preço do tuk-tuk com o motorista vietnamita que ganha 10 euros por mês.
Deste prazer inconsequente e quase sexual em “amealhar”, independentemente da vida que vai acontecendo em paralelo.
Deste contínuo estado de antecipação para algo que, afinal, não tem qualquer desfecho.
Deste desejo de morrer rico, com um enorme legado em papel, mas com pouco mundo.
No fundo, só queria dizer isto: estou verdadeiramente convencida de que praticar a forretice é nunca chegar realmente a viver.

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