Sobre estacionar.

Aquele momento em que temos de estacionar o carro num lugar minúsculo, e o que podia ser uma simples manobra que fazemos todos os dias se transforma numa prova de esforço olímpica com o único objectivo de deixar o nosso ego em frangalhos.

Tudo começa assim: alinhamos lado a lado com o carro da frente, avaliamos a geometria da coisa, decidimos que a empreitada é possível, baixamos o rádio para “ouvirmos” o estacionamento (um hábito incompreensível, de resto) tudo impec e aí vamos nós, ah catano, meteu-se um carro atrás à espera, e depois outro, e outro, e de repente parece que o mundo inteiro congelou à espera da nossa manobra, começamos a suar do bigode, não sabemos porquê mas sentimos que é uma questão de honra acertar à primeira, mas está tudo sob controlo, começamos num pára-arranca delicado, o braço direito a driblar loucamente a manete, só que 27 manobrinhas depois continuamos com o rabo de fora, admitimos que não deu, dizemos palavrões para dentro e toca a sair de novo para voltar a tentar, põe marcha-atrás, sua um pouco mais do bigode, a pressão duplica com temor ao julgamento alheio – quem não acerta à 1ª é aselha mas quem não acerta à 2ª é um atentado – respira fundo e põe a primeira para ajeitar, mais 27 manobrinhas de pára-arranca e um abrir de porta esperançoso para fazer o status, fónix a distância a que estamos do passeio dava para uma chaimite-bebé, não vai dar, tira de novo, magica internamente que o gajo de trás está a fazer julgamentos cruéis altamente chauvinistas sobre o facto de sermos mulheres ao volante, odiamo-lo e em silêncio chamamo-lo de porco machista enquanto pomos a marcha-atrás e ajeitamos de novo, buzinas impacientes aqui e ali só para suavizar, à terceira é de vez só que foi demaaaaaaaaaais deu um ligeiro beijinho no carro de trás, eufemismo para uma traulitada de chapa suficientemente violenta para deixar o bicho num twerking desenfreado, bem à vista da fila de carros que entretanto se formou e que só parece acabar no Bombarral, e quando parecia não poder piorar puuuuff surge um arrumador vindo do céu para gesticular círculos no ar e a vociferar indicações infrutíferas tipo “agora destroce tudo!”, dignidade a chafurdar na lama, se calhar nem preciso assim tanto de ir a este sítio, mãos suam hecatombes de suor e escorregam no volante tipo sabão, palavrões a rodos, se é isto o sentido da vida então nem vale a pena vir trabalhar e contribuir para este mundo supérfluo e capitalista e…
…que se lixe vou meter no parque.

*arranque-flecha com pneus a chiar, sem nunca mais olhar para trás*

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