Pensamentos que só os ditadores da cozinha vão perceber

Num dia como os outros, há um jantar lá em casa.

O meu solícito grupo de amigos pergunta 10 vezes o que é que podem fazer para ajudar.
Eu respiro fundo e, apesar de não precisar, tento delegar algo tão simples como “corta aí o tomate aos bocados”.
O problema é que a minha maneira é sempre a melhor.
No meu íntimo sei que aquele tomate vai ser dilacerado sem piedade. E atirado para a salada em bocados assimétricos do tamanho de tarolos de lenha.
Mas tudo bem, não é o fim do mundo.
(É só o fim daquela salada.)

Quando estou prestes a voltar à calma habitual, isto acontece:
Um deles pega na colher de pau – que é o meu domínio por direito – e começar a mexer no MEU TACHO.
Distraidamente, enquanto dá goles de mini e fala sobre a Casa dos Segredos.
Sinto uma fúria possessiva a brotar dentro de mim, mas faço por agir civilizadamente.
Mesmo enquanto o vejo bambolear a colher de pau de forma desordeira no refogado.
No sentido contrário aos ponteiros do relógio.
Suo do bigode, mas tento sossegar.

Só que agora ele estendeu a mão para o sal grosso.
E está a polvilhar arbitrariamente o tacho, enquanto dá golos de mini e fala sobre a Casa dos Segredos.
Não lhe ocorreu perguntar se já pus.
Neste momento o jantar pode perfeitamente ser flor de sal.
Tudo bem.
Invento o alibi de cortar mais uma cebola para disfarçar as lágrimas reais que já me escorrem pela face.

O ser humano precisa de mandar.
Há quem precise de mandar em países.
Eu só preciso de mandar nos meus tachos.

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