As Partidas dos Aeroportos

Descobri o local mais português de Portugal, o centro nevrálgico da nossa cultura popular:

As partidas dos aeroportos.

Na despedida do aeroporto, parece que todos os ingredientes que fazem de Portugal português se imiscuam numa grande papa folclórica.

Em mais nenhum sítio vemos a cena bizarra do avô que se despede do Zé Carlos Miguel emigrado na França, “bóne vóiage” enquanto lhe dá chapadõesna cara que são festinhas falhadas (o velho já não controla a força) e toma lá um bacalhau inteiro para fazeres à brás, à lagareiro, espiritual e avec natas. E lá vai o Zé Carlos com a mala de porão a tresandar a Portugal.

Em mais nenhum sítio vemos viajantes de partida a transportar os mais variados víveres – pastéis de Belém enfiados na bagagem de mão, chouriças e morcelas a espreitar pelas malas de senhora, sacos, saquinhos e sacões com percebes e tupperwares à pinha com repastos tradicionais.

Em mais nenhum sítio vemos comitivas com mais de 30 familiares, o cunhado, o primo, a tia, o sogro e a dona Ermelinda da mercearia, mai-los lenços de assoar, choros, gritos e o traje lúgubre de uma viuvez anunciada – ir para o estrangeiro está ela por ela com falecer.

Movem-se em bloco e muito lentamente, para stress do viajante que tem os minutos contados; a mãe despede-se do filho outra e outra vez, lambuza-o com mimos e lágrimas e leva às mãos à cabeça, desgraçada com as futuras saudades que já sente.

E dizem-se adeuses 29472864 vezes na forma de beijos demorados, abraços de partir ossos e adeusinhos esbracejados ao longe pela enésima vez, numa locomoção lenta de emoções, até chegarem o mais longe que podem, e ficam ali, derrotados, a atrapalhar as filas de multidão com pressa, um infeliz pergunta “está na fila?” e arrepende-se logo porque a avó responde “Não filho Deus me livre que eu odeio aviões só estou a despedir-me do meu neto mai velho que vai prá França graças a Deus encontrou trabalho…” e toda o relato dos 87 anos de vida (doenças, muitas), com “Deus” a rematar o início e fim de cada frase.

1h de folclore mais tarde o viajante lá se dirige para o embarque e eles ficam ali, derrotados, empoleirados nas baias do controlo de segurança, à espera do derradeiro contacto visual, “ai Jesus que agora é que ele foi mesmo.”

Dá genuína vontade de aplaudir no fim, como se tivéssemos acabado de assistir a um Fantasma da Ópera ou um Nessun Dorma eximiamente interpretado.

Esqueçam o fado e o mirandês. As partidas do aeroporto da Portela deviam ser Património Mundial da Unesco.

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One Comment Add yours

  1. Pusinko diz:

    Em Portugal dedico-me a apreciar as chegadas. Há sempre imensos familiares e abracos e estardalhaco e lagrimitas, cartazes e fores. Lá para 22 ou 23 de Dezembro é o pico anual de emocao porque fica tudo doudo com o Natal e as rabanadas. Eu continuo impassível a observar em qualquer época do ano. (Até porque se eu quero emocao bem que tenho de sair do aeroporto porque a minha mae espera por mim no carro “para nao atrasar mais”. )

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