Sobre a bula (bula, e não ébola)

Ao longo da minha vasta experiência de vida tenho aprendido algumas verdades universais, que carrego comigo para o que der e vier.

Uma delas é esta, que passo a partilhar: não há nada, mas mesmo nada, mais irritante do que tentar dobrar um objeto que nasceu para ser indobrável.

Estou convencida de que estes artigos existem na nossa vida, não para cumprirem a sua missão funcional, mas com um propósito superior, mais elevado, quiçá uma bonita lição de vida sobre tudo o que é efémero e mutável.

Assim, hoje falo-vos abertamente e sem rodeios sobre aquele temível objecto que é a bula do medicamento.

O que sabemos sobre a bula?

Que, uma vez desdobrada, é fisicamente impossível dobrá-la de volta. A Humanidade já tentou, a bula nunca cedeu.

Não sei que feitiçaria é aquela, mas estes papéis diabólicos vêm com 87 lados e 782 vincos e – oh, triste irreversibilidade da vida – uma vez abertos, nunca vão voltar a ser uma fita perfeita e uniforme de papel compacto.

Depois de 24927 tentativas somos vencidos pelo cansaço, ficamos a saber que é impossível devolver-lhes o aspecto original e, pasmem-se, temos de estar em paz com isso – os vincos NUNCA voltam a bater certo, a parte da frente passa a ser a dos efeitos secundários (a lembrar-nos de que “em alguns casos, morte”) e a parte que realmente interessa fica nas entranhas daquele naco de papel, agora maçudo e muito parecido a um quantos-queres com trissomia.

Depois temos um ataque de nervos, amachucamos o dito e desfazemo-nos dele, para não nos lembrarmos de como somos uns inúteis, incapazes, medíocres humanos.

Dias mais tarde, lá surge o efeito secundário. E o que acontece? Não sabemos o que fazer, nem temos a bula para consultar e, nalguns casos, falecemos mesmo.
E a bula, já reciclada e reutilizada num caderno escolar, ri-se malevolamente do nosso cadáver em decomposição no WC.

Ora, há aqui algo a aprender.
É, ao mesmo tempo 1. Um processo tristemente irreversível que 2. Nos faz sentir que possuímos um QI de um louva-a-deus e 3.nos impõe pela força uma bonita lição de humildade.

Pensem nisso.

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3 Comments Add yours

  1. Maria diz:

    Parabéns pelo blog, os posts têm sempre imensa graça!
    Hoje não resisto a comentar: as bulas (ou folhetos informativos) estão (quase) todas disponíveis online aqui: http://www.infarmed.pt/infomed/pesquisa.php
    Para a próxima pode colocar imeditamente o “papelinho” na reciclagem 🙂

  2. Muito bom!!!! Escreva mais… estou sempre a vir ao blogue mas não há Actividade… sei que posts destes requerem muita imaginação mas….força aí!

    1. Olá Maria! Muito obrigada! Vou tentando escrever, nem que seja uma vez por semana. É uma grande motivação ler comentários assim! 🙂 Um beijinho

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