Ser maria-rapaz é isto.

f8e40b662f5ad46d20ff2284df19ec7e

Vivi a minha infância a achar que o namorado da Barbie era o Optimus Prime.

Ela andava sempre esfarrapada, semi-nua e os seus sapatinhos de salto alto nunca tinham par. Ao fim de duas semanas, o longo cabelo loiro parecia um rato morto, até ao dia em que me fartava e o cortava curtinho – só tinha 3 irmãos e nenhum deles me avisou de que não voltava a crescer. Nunca foram de avisar. Já no futebol era só naquele milésimo de segundo antes de levar com o petardo na cara. “Não vale bujas!” chorava eu, com a cara aos pentágonos e um dente de leite a menos. Mas no dia seguinte estava lá outra vez, pronta a levar sovas por diversão.

Tinha caneleiras, cotoveleiras e outras eiras espalhadas pela roupa e de vez em quando a minha mãe lá me punha uma saia, só para ter a certeza. Mas sempre foi mais azul do que cor-de-rosa.

Esta é a minha confissão de hoje: sou maria-rapaz de gema. E este é o meu manifesto. a infância não me preparou para o lado feminino da vida, nomeadamente para todos aqueles chamamentos que costumam brotar em meninas a partir dos 20. E não falo de casar ou desatar a ter filhos. É um estado de alma híbrido, por vezes incompreendido, de não reagir a 100% como o resto da tribo.

Falo, essencialmente, destas 10 coisas:

1. Não gosto de laçarotes, nem de folhos, nem de renda, nem de tule –  e com isto já eliminei 5% das palavras-chave em mulherês.

2. Não sei os nomes de produtos de maquilhagem. Os que são em estrangeiro sei apenas dizer de cor – blush, fond de teint, cenas para a visage – sem saber qual é qual.

3. Os saldos assustam-me. Aquela visão de roupa encavalitada cheia de mulheres famintas à volta, que nem abutres com pedaços de carne, é coisa para me fazer ficar em casa a chorar em posição fetal.

4. Não possuo utensílios de cozinha. Pelo menos fora da triologia universal concha-da-sopa/saca-rolhas/colher-de-pau.

5. Não domino a terminologia do mobiliário. Nomeadamente a estirpe dos maples, das senhorinhas e das poltronas – para mim são tudo impostores para dizer sofá.

6. Nunca me deixem a sós com uma costureira. Não sei distinguir tecidos. Não sei o que são drapeados nem chiffons. Tenho pavor aos Óscares e aos inevitáveis comentários sobre os cortes dos vestidos – não tenho rigorosamente nada de inteligente para dizer. Só comento quando sinto que o vestido pende de forma completamente unânime para o lindíssimo ou para o asqueroso. Portanto, com alguma pena vossa, este blogue nunca vai ser um blogue de moda.

7. Sei assinalar um fora-de-jogo. Se for realmente necessário.

8. Nunca usei peças de roupa da cor rosa-pastilha-elástica. Ou da cor salmão. Ou da cor casca-de-ovo. Ou da cor beringela. Nunca fui de comer o que visto, nem de vestir o que como.

9. Adoro filmes de tareia e filmes de ficção científica. Adoro ainda mais filmes de ficção científica com tareia a valer. Nunca tenho companhia para ver.

10. É raro dominar aquelas coisas exclusivas do pelouro feminino: “roupinha” de bébé, cortinas, unhas de gel, centros de mesa, origami…

Com tudo isto já fico de fora de 73% das conversas entre miúdas.

A todas as marias-rapazes que sofrem do mesmo, um olá solidário no dia de hoje.

Anúncios

8 Comments Add yours

  1. Sofia diz:

    Na minha infância e pré-adolescência fui completamente Maria rapaz, quase não tinha amigas, só amigos.
    Hoje em dia ainda me revejo em muitaaa coisa que escreves mas não sou tão radical já. Agora que também fico de fora das conversas de ‘gaja’ e que prefiro um MILHÃO e meio de vezes estar com os homens, that’s for sure!

    1. Olá Sofia. Obrigada pela tua mensagem. Somos duas, também já “ameninei” o mínimo indispensável para socializar, e até já vou conseguindo participar numa ou noutra conversa de gaja… pode ser que chegue à idade idosa a falar de rendinha! 🙂

  2. Quando era mais pequena sofria do mesmo, os familiares faziam questão de me oferecer barbies e eu fazia questão de lhes cortar o cabelo e deixá-las para um canto do quarto. Apesar de adorar ballet, desportos radicais eram a minha paixão, por isso tudo o que me metesse adrenalina no corpo era posto em primeiro lugar. Via as minhas amigas a brincar com bonecas e eu a correr ao lado dos rapazes a jogar futebol, elas a brincar às mamãs e aos papás e eu a jogar à apanhada e às escondidas. Sempre adorei esta minha infância longe dos feminismos.
    Hoje posso dizer que mudei, e já não sou uma maria-rapaz, quer dizer, ainda sou um bocadinho, o meu armário ainda continua com mais azul do que rosa.
    Adorei o teu post 🙂

    1. Olá,
      Mil obrigadas pela mensagem e pela cumplicidade. 🙂 Também adorava danças e ballet, mas não dispensava o judo da vida real com os meus irmãos, também conhecido como pancada gratuita só por diversão. eh eh eh. Um beijinho

  3. Isa diz:

    Olá 😀

    Passei por rapazinho até as maminhas me começarem a crescer e nunca deixei de ser maria-rapaz, e sempre tive dificuldades em dar-me com mulheres-mulheres, parece que não encaixo.. é estranho, mas não é coisa que me tire o sono.

    Muito bom post, btw!

    1. Obrigada pela mensagem e pelo elogio, Isa!

  4. Hugo diz:

    Pela descrição, pareces ser uma mulher quase perfeita! Não percebo como é possível não teres companhia para os filmes de ficção científica…

  5. Que bom que há mais…como eu, afinal não sou a única…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s