E se a revista Hola fosse à vossa casa agora?

Adoro ir ao cabeleireiro por duas razões: primeiro porque regra geral saio de lá com uma guedelha favorecida e segundo porque posso folhear a Caras e a Hola dos últimos meses.

E é sobre este último ponto que vou discorrer hoje: as revistas da sociedade, que tanto se empilham em salas de espera por este país fora.

O que mais me apraz nestas publicações é ver estas reportagens na casa das pessoas, como esta que aqui vemos na revista Hola! (a exclamação é mais que justificada) cuja protagonista não tenho o prazer de conhecer.  Observe-se o olhar corriqueiro ao seu dia-a-dia. A forma intimista como abre as portas de mi casa es su casa.

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Ora, uma visita desprevenida da Hola à minha casa encontrar-me-ia de camisolão, meias aos bonecos e pantufas de Inverno, normalmente em forma de animais. Mas quando foi a casa desta senhora, pasmem-se leitores, foi encontrá-la de vestido de noite.

São várias as interpretações que se me ocorrem:

1. Apanharam a senhora de surpresa, num dia de semana como outro qualquer, regressada do trabalho, atarefada a pôr a mesa do jantar, daí este ar afogueado de quem não contava ter mais bocas para alimentar

2. A senhora estava de bata, daquelas às flores que se usam para tarefas domésticas, mas apressou-se a despir quando percebeu que tinha a Hola à porta. Por baixo tinha este traje de tule, que é só de andar por casa porque já está ruço

3. A senhora estava naquele preciso instante com o refogado ao lume, e no intervalo de a cebola ficar loirinha aproveitou para posar um pouco na sala, nesta posição frequente que costuma ostentar em casa, encostada a uma cadeira aleatória.

4. Por baixo do vestido esta senhora está de chanatos, marca Speedo, daqueles que fazem réck-réck (dão mais jeito para aspirar que o salto agulha)

Ou então simplesmente gosta de executar tarefas domésticas de vestido de noite, pronto.

Mais à frente na revista fui dar com este simpático conjunto de moçoilas, nitidamente surpreendidas a meio da faxina doméstica, talvez a aspirar flores murchas do chão, que é para aprenderem a ter bibelôs em vez de canteiros em casa.

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Não sem estranheza, até admito que gostem de conviver assim, no vão das escadas, em pleno lugar de passagem, mesmo quando não está lá a Hola. Será talvez uma espécie de feng-shui, e quando não é nas escadas é sentadas no chão, ou estendidas num tapete persa, o que confere uma certa humildade ao bruto palacete em pano de fundo.

Mais à frente aparecem deitadas com os pés em cima de sofás do séc.XVII, ou elegantemente sentadas em cima de pianos, que é aquele sítio perfeitamente verosímil para pousar o befe (e todos nós o fazemos em nossa casa).

Continuei a folhear e ao chegar a esta página, ocorreu-se-me a legenda para esta cena tão pé-de-chinelo no quotidiano destas jovens: “Olhem para nós no nosso habitat natural, onde conversamos sobre política e fazemos ponto-cruz.”

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Mas nem tudo são rosas. Arrisco dizer que a moça da esquerda esteve a desentupir o ralo da casa-de-banho no dia anterior, cheio de sedosos cabelos seus, razão pela qual se encontra nesta posição horizontalizada e muito pouco natural: as cruzes ainda latejam de dor. Mas o ralo está desentupido por isso voilá, uma flute de champanhe para festejar!

E assim continuei a folhear, enquanto outros personagens surgiram nas suas casas, empoleirados em cadeiras e semi-deitados em chaise-longues, sempre em poses mais ou menos circenses.

Quando cheguei à parte das famílias a pose era sempre em escadinha, e tocavam-se todos uns nos outros, para não restarem dúvidas de que a família é realmente chegada. (veja-se o senhor em baixo, que está a cravar as unhas nos flancos da moça – aquele sorriso avinagrado não engana, pobrezinha).

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E por fim, acabei com a visão desta senhora:

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Pensei, pensei, pensei e entrei em overload de tanto carburar. Ainda assim, não encontrei uma razão plausível para explicar os inúmeros porquês quanto a esta senhora, a sua fatiota e o cenário montanhoso por trás. Perdoem-me se vos falhei, mas entretanto já tinha o cabelo cortado e não havia nada a fazer.  

Bom fim-de-semana!

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4 Comments Add yours

  1. Teresa Seruya diz:

    Querida Miri, esta sua análise da Hola! está simplesmente soberba!! e muito perspicaz.
    Aproveite cada vez mais este enorme talento que Deus lhe deu.
    Imensos beijinhos
    Mimi

  2. Como sempre cheio de graça e muito bem observado! Como é possível ainda não ter aparecido ninguém que queira aproveitar e explorar o ENORME TALENTO da Mariana Seruya Cabral!!!!!!!

  3. Josélito diz:

    e pensar que há quem aceite pagar o preço de capa para sorver gulosamente estas revistas… pessoas como nós, eu e tu… fónix…

  4. Sara Seruya diz:

    Que MARAVILHA!! Confesso que a última imagem, com a Dona de fato de peles longo sob um fundo dúbio de montanhosa neve, também me deixou perplexa…

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