Quando não há porta para bater com a porta

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Quando estamos naquela fase emocional e vulcânica de uma discussão com o namorado, a mãe, o senhor do talho ou a Vodafone, às vezes chega aquele momento em que a única solução digna e vencedora é bater com a porta. De preferência de forma sexy e hollywoodesca.

Ora, bater com a porta está underrated. Podemos gritar, esbracejar e difamar numa discussão, mas nada substitui a beleza de uma porta a bater violentamente na cara de outrém. Diz-se que é rude, ligeiramente infantil até, mas é extremamente importante para a sociedade. Senão vejamos: a porta é um mediador do silêncio. Se não fosse a porta, a discussão perduraria até à exaustão. Outras acusações escusadas jorrariam das bocas arguentes. Poderia chover chapada.

No acto de arremessar a porta na cara do companheiro há tensões que se esvaem, e coisas  erradas que ficam por dizer. Dá a ambas partes a ilusão de saírem a ganhar, já que não há lugar para o contra-argumento. É uma bonita vitória por falta de comparência.

Para além de que manda alto estilo girar sobre os calcanhares e ribombar porta fora naquele momento apoteótico da discussão, de queixo erguido e orgulho intocado (e não é qualquer um que sabe escolher o timing).

Slam door

Só que às vezes acontece algo inesperado: não há porta para bater. Aconteceu-me há tempos, e foi dramático. Na altura pensei que oxalá houvesse um limbo num universo paralelo para onde pudéssemos transportar-nos só pelo prazer de desaparecer em estilo; algo imaginário, e depois voltávamos. Porque querer ter aquele final irascível ao estilo nem-mais-uma-palavra-sobre-este-assunto mas ficar no sítio onde se está é simplesmente patético.

Como sou amiga, estive a pensar nalgumas situações em que isto acontece, e em soluções pragmáticas para o problema. Vejam-se os seguintes exemplos:

1. Uma discussão num carro em andamento – Acabamos a discussão de forma apoteótica mas continuamos no mesmo campo visual e auditivo do adversário que queremos silenciar. Ele continua ali, bolas!

Solução: atirarmo-nos porta fora à Steven Seagal. Nunca ninguém faleceu disso.

2. Uma discussão num open space – Um sítio complicadíssimo para se bater com portas.  Uma opção seria evadir-nos para a casa-de-banho, a única divisão com paredes contíguas, e bater com essa porta. Mas é só estúpido, porque ficamos confinados aos 2 metros quadrados onde as pessoas fazem necessidades.

Solução: encontrei duas. A primeira é abrir a janela do andar, logo depois descer ao rés-do-chão e aí sim bater com a porta de entrada, com violência suficiente para se ouvir no andar desejado. A segunda é simular a existência de uma porta invisível que mais ninguém vê, atravessá-la e fazer com a própria voz o som dessa porta a bater com força (tráás, paaaau, puuuf são fonemas comuns). Não é nada estúpido, e funciona.

3. Uma discussão ao ar livre – o problema de  estarmos outdoor é que não há propriamente algo de cimento ou betão a circunscrever a situação.  Não há uma esquina para dobrar, nem um beco para desaparecer.

Solução: o máximo que podemos fazer é andar na direcção contrária até desaparecer no horizonte, custe o que custar;  se o exemplo for na praia dá um trabalhão (andar na areia cansa) pelo que se aconselha um mergulho no mar encobrindo o corpo por completo e sustendo a respiração até se considerar que a discussão está ganha.

De nada. Agora quero ouvir essas portas a bater! Tira o pé do chão galera!

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