Quando se dá prenda porque “é chato não dar”

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Este ano parece que nos sentimos compelidos a gostar menos do Natal por causa da crise, como se fosse essa a nossa obrigação enquanto cidadãos sob protesto.

De repente o mais importante a constatar nesta quadra é aquilo que não vamos poder comprar, porque isto está mal para todos. Não senhor, este ano ficamos reduzidos a um feriado banal, já que não nos deixam estoirar dinheiro com a mesma sofreguidão.

Se há um fenómeno natalício que merece a minha maior admiração é o dar prenda porque “é chato não dar”. Uma obrigatoriedade assumidamente palerma, porém incontornável.  Por mera cortesia, já se trilhou o Colombo 7 vezes mas ainda falta a sogra, o cunhado, a mulher-a-dias e os 999 amigos de Facebook… e galga-se de novo o andar das lojas, já com bolhas nos pés, para mais uma paragem nos chás da Rituals, outra nos esfoliantes do Boticário e uma última nos pijamas da Primark  (se não se falecer na tentativa) à procura do presente mais indiferenciado possível, que jamais desagradará mas nunca agradará por demais.

A ideia, já sabemos, é evitar que seja para aquela pessoa, naquele momento, porque faz sentido. Não senhor, quer-se algo impessoal e transmissível, que “safe” enquanto prenda de qualquer um: umas meias unisexo, uma moldura sóbria, quiçá uns talheres para a saladeira? Nunca fica mal! E sofre-se, porque a contagem decrescente continua, e de forma supersónica – será que compro tudo a tempo de dia 25?

O resultado desta maratona, tão stressante quanto neurótica é, invariavelmente, um montinho de presentes pouco criativo. Razão pela qual resolvi escrever a seguinte carta de protesto ao Pai Natal:

PRENDA

“Querido Pai Natal,

Eu sei que é difícil encontrar a prenda ideal. E que nem sempre há inspiração para “inventar” qualquer coisa para dar àquela pessoa a quem é chato não dar. Mas se essa pessoa sou eu, prefiro não receber. Não é por mal, é só porque tenho a certeza absoluta de que vou desembrulhar mais um artigo neutro  daqueles desprovido de risco, história ou emoção – que de tão universal podia tão bem ser para mim como para a tia-avó Lurdes.

E só Deus sabe que já não aguento mais Ferrero Rochers. Nem mais uma vela com cheirinho para a minha estante. Nem mais uma écharpe que dá com tudo. Nem, Deus me livre, mais uma caixa de bombons a somar à montanha de doces que já existe e que não consigo parar de comer.

É dinheiro gasto em não ser descortês, e em troca do quê? De um lampejo forçado do que podia ser gratidão, mas não é, porque não é especial, é expectável, e virou indiferença no segundo em que se amachucou o embrulho.

Pai Natal, não me cabe julgar a quem ofereces presentes, se o fazes com real ternura; só te critico se  picares o ponto com a prenda X para a pessoa Y e a intenção for vazia, para cumprir com o ritual. Para quê dar então? Se é dar por dar, dê-se a quem precisa. O mundo não precisa de mais velas, écharpes e Ferrero Rochers.

Ainda assim, obrigada por te lembrares de mim.

Abraço nessa pança balofa,

Bumba na Fofinha”

XMAS

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  1. Como assim o mundo não precisa de mais Ferrero Rochers?!? Que absurdo! 😀

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