Bota ou sandália, eis a questão

pés

E eis que chega a altura do ano em que o mundo ocidental entra em colisão. Porque está demasiado frio para sandália e demasiado calor para bota, e a sociedade de consumo esqueceu-se grosseiramente do calçado para a transição.

É aquele momento do ano em que eu não gostava de ser pé. Porque sucede que ainda está calor, só que já faz pele de galinha, mas também não está assim tanto frio para pele de ovelha, maneiras que o pé vai sempre sofrer, rapando “briólo” ou destilando de calor.

Há quem ache que quando as árvores de folha caduca se despem é sinal de que os pés se deveriam vestir.  Ora, para o acérrimo defensor da bota, usar sandália em Outubro  é como levar um decote obsceno nos pés, daqueles a que a que só a nossa amiga slutty se atreve. Já o sandaleiro gosta de andar à fresca até quando já não der mesmo. E depois há aqueles híbridos tipo botandália, um andar à fresca de cano alto, completamente imbecil na sua incoerência.

Eu, se fosse pé, sentir-me-ia injustiçada. Porque os donos, de tal forma imbuídos na exigências sazonais da moda, acabam por se esquecer do seu bem-estar. Para um pé comum, que não é esquimó, nem gosta de empapar as meias com suor, pouco importam estas mundanidades.

Senão vejamos: o pé, como parte do corpo, sempre foi servil, e nunca lhe concederam o devido protagonismo, como aquele que concedem ao nariz, por exemplo. Um mimado de primeira. Goteja, dão-lhe lencinho. Espirra, snifa mentol. Entope, a boca resolve. Quando rebenta a bolha, pé não deixa de ser pé. Nem quando é pé-de-atleta, sem ser atleta, que é do mais inglório que há ao nível da podologia.

Pé que é pé preferia ter nascido mão, a mana lá de cima, cheia de bling bling e metais preciosos, e aquele dourado que nunca tira, excepto quando o dono vai ao motel.

O pé é aquele soldado de trincheira, mais valente do que qualquer outra parte do corpo.  É aquele que leva com o corpo em cima, que experimenta a lama, a água gelada, aqueles saltos altos assassinos (sim, chamam-lhes “agulha” porque inflingem dor). Quando o joelho se cansa de gatinhar, chega o pé e resolve. Ser um pé é levar a vida inteira a jogar à macaca e a ficar cinzento-escuro nos festivais de verão. É bater com o mindinho na esquina uma vez por ano.

Acima de tudo, é ser vertical todos os dias e caber em Chicos, All-Stars e Pradas sem ter preferidos. É ser compreensivo com as Crocs e os chanatos de piscina, e só por isto Represas devia cantar “ser pé é ser mais alto, é ser maior do que os homens.”

Bota ou sandália? Entendam-se, mas no fim do dia haja pedicure e um bom par de pantufas, por favor.

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2 Comments Add yours

  1. Mariana diz:

    De Mariana para Mariana, sou aluna de comunicação social e leitora assídua de um ou dois blogs. Não costumo comentar mas decidi fazê-lo desta vez para parabenizar (palavra assustadora) este blog. É verdade! Escreves incrivelmente bem! Parabens! Adoro o teu estilo de escrita e identifico-me com absolutamente tudo o que escreves.
    Sinto me quase que pouco honesta a dar-te estes elogios, porque no fundo, são elogios egoístas. Vou passar a explicar: divirto-me tanto a ler o teu blog que só espero com este comentário incentivar-te a escreveres muito mais vezes! Força! Está um espectaculo!!

    1. Olá Mariana! Não só somos homónimas de nome como de curso também. Muito obrigada, não é todos os dias que acordamos com um elogio tão simpático e motivador. Ainda por cima quando são 9h da manhã e temos zero vontade de ler os 184683 e-mails de trabalho.

      Bem-haja, deste-me um empurrão para enfrentar esta cruel segunda-feira!

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