Não me venham dizer que nunca pensaram no vosso funeral.

Eu sei que é doentio, mas quem não o é? Naqueles momentos mais profundos de auto-comiseração, pimba, lá imaginamos um mundo em que o nosso corpo vira carcaça em decomposição, e nada vai ser a mesma coisa, não pode. Quando começamos a chafurdar nos detalhes obscuros deste acontecimento, somos exigentes, ó se somos.

Para começar, o mínimo que pedimos é um reset no calendário civil, a assinalar um Antes da Nossa Morte e um Depois da Nossa Morte,  que não tem porque ser apanágio exclusivo de Jesus (e com isto nos confiscam de imediato o lugar no céu, que é para não sermos parvos).

Aos que cá ficam exigimos impiedosamente que sofram, coitados. Impõem-se sintomas de luto acentuado e prolongado no tempo, nomeadamente em familiares, amigos próximos e conhecidos de Facebook, Twitter e Linkedin e, no pior cenário possível, só enchemos o Coliseu dos Recreios. Um Coliseu todo de preto, num pranto em coro (banda sonora é “I’ll be Missing You”,versão Puff Daddy).

Assim como assim, é nestas alturas que teorias como a dos Seis Graus de Separação deviam funcionar. Se todos estamos ligados, não custava nada que as 6 pessoas que se interpõem entre mim e o Ryan Gosling mexessem o rabo uma vez na vida. Imaginá-lo forradinho de cabedal preto, de lágrima no olho, era coisa para me ressuscitar o coração. Provavelmente falecia de arritmia logo a seguir.

E quem não dá por si a imaginar se fulano ou cicrano iria? E a comover-se/zangar-se por antecipação com as suas hipotéticas presenças e ausências? É macabro, sim, mas é a natureza humana, carente e falível.

No meu funeral, porém, só filmam a plateia. Em nenhum momento imagino as partes más, de enterros, caixões e esqualidez. Deve ter bolinha encarnada. Ou então é daqueles lutos light, com gospel e salgadinhos volantes. Não, por favor, poupem-me a isso, quero lágrimas, drama e  “Porquê Meu Deus, porquê?!?”, etc. Juro que ao mínimo sinal de celebração vos assombro – provavelmente a vossa cozinha, vá – e se já me aturam em carne e osso não queiram conhecer o meu fantasma. O Gasparzinho é uma afta para mim.

Sinceramente, acho que este sinistro retrato promíscuo do nosso funeral só tem uma vantagem:  a de nos fazer pensar existencialmente sobre como queremos ser lembrados, e por quem. “Não há nada pior que um velório às moscas”, diria qualquer um do Jet-7.  Só que exigimos deixar para trás um volte-face no universo, quando se calhar nem nos esforçamos assim tanto para deixar pegadas pequeninas nas vidas dos outros. Mas ainda respiramos, ainda vamos a tempo.

Ficam desde já convidados a aparecer, se não cavarem tijolo antes de mim.

Abreijos

By the way, é para aqui que vou no after-life.
By the way, é para aqui que vou no after-life.
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