Lembrei-me de porque é que é tão bom viajar

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Quando cheguei a Tenerife em trabalho tinha à minha espera um hotel de 5 estrelas daqueles com salgadinhos volantes a circular e toalhetes cítricos para tudo. Até o suor do ginásio era aromático.

As minhas férias começaram verdadeiramente quando saí do hotel de 5 estrelas e tomei posse do meu Corsa alugado para chegar a um estabelecimento mais apropriado ao meu salário: um hostel fanfarrão com quarto partilhado. Como sabia que ia partilhar o ar com mais 7 fanfas, escolhi o andar de cima do beliche para ter a vantagem da altitude, quanto mais acima mais oxigénio.

O hostel chamava-se Los Amigos e era encantador, senti-me em casa. Nele conheci o Henry, um inglês cujo braço fazia duas coxas. A t-shirt parecia querer rasgar-se em dois na parte do bíceps, sempre. Serviu 10 anos no Iraque e agora era “security consultant”, uma espécie de Rambo coordenador de equipas de segurança para missões de políticos, CEO’s, etc a países em guerra. Quando não estava em Tenerife estava na Síria, no Iraque ou na Líbia. Dizia que o seu trabalho era “boring”, preferia torrar ao sol e trocar a violência do terreno por uns sopapos na borracha do ringue de boxe, onde ia todos os dias. Escusado será dizer que, vamos lá, fiz por não dizer nada que pudesse desagradar ao Henry.

Também conheci o Javier, um espanhol quarentão de Bilbao que me disse “És a portuguesa mais bonita que já conheci” e eu “mas já conheceste muitas?” e ele “ah, não, só tu”. O Javier era um poeta e estava-se nas tintas para a eficácia dos seus piropos.

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Um belo dia decidi correr na praia e quando me deixei esparramar na areia, vencida, pus os óculos e olhei pela primeira vez para os meus companheiros de praia: senhores e senhoras, acima dos 70 e com ares de avós, em profunda e total pelota. Era uma praia de nudismo, tudo a ler e a apanhar banhos de sol, ao léu. Deu-me para pensar que há vantagens na miopia, ter-me-ia poupado ao detalhe das péis a badalar, das curvas enrugadas e das virilidades descaídas. Mas achei o à-vontade ternurento. Senti que deviam ser genuinamente assim, por fora e por dentro: sem segredos.

Depois seguiu-se a Maribel, uma empregada de mesa ruiva e sardenta que me apanhou a ler Game of Thrones e não saiu mais da minha mesa, na ânsia de discutir cada capítulo, cada personagem, as duas em êxtase, até os colegas lançarem olhares furtivos e ela ter de abalar.

Em La Laguna, na cidade universitária, conheci um velhote que jurava a pés juntos ter conhecido Amália Rodrigues em Caracas, “hace mucho, mucho tiempo”. Aconselhou-me o restaurante mesmo ao virar da esquina, cuja dona não possuía um único dente e me serviu fafafa com fafafa, um nome indecifrável porque sem dentes é impossível perceber o sotaque, mas era típico e muito, muito bom.

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Daí segui para La Orotava, onde esbarrei com um evento local de renome: a passagem de modelos na catedral. Moças e moços da vila bambolearam-se com roupas das lojas locais, o último grito da moda orotaviana, em pleno pum tss pum tss de boite, na catedral histórica da aldeia. Elas eram bem roliças e eles podiam ser da família Carreira, mas o orgulho dos familiares a assistir era o que dava mais piada.

Daí entrei num café/centro recreativo com ar de monumento e em menos de nada dei por mim no meio de um casamento, de chinelos e cabelo cheio de sal. Ninguém me achou particularmente desenquadrada.

Depois subi ao El Teide, o pico mais alto de Espanha, um autêntico gigante rochoso acima das nuvens. Enquanto digeria a paisagem no único café do sopé da montanha, ofereceram-me uma tigela de amendoins e dois chupa-chupas grátis, só porque sim.

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Viajar é isto: pessoas novas, conversas diferentes e imprevistos bem-vindos. Basta mudar de cenário e ter os sentidos apurados. E é assim que as memórias ficam e surgem as histórias para contar aos netos, as anedotas e os amores para a vida, como este entre o sal e a pimenta.

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3 Comments Add yours

  1. Josélito diz:

    Bora lá a Tenerife, esperando que o Henry já tenha bazado para o Afeganistão… não lhe gostaria de exibir as minhas miudezas e afins naquela praia de cotas em pelota (let alone those of my current wife…)

  2. sara seruya diz:

    que lindo texto, Mariana, “despreconceituoso”, na sua alegria de viver, e poético!!…

  3. Lucas diz:

    Escreves tão bem, rapariga. Que bonitinho…

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