Diário de um fio de cabelo

leao

Olá, eu sou um fio de cabelo.

A minha vida é um drama. Se sou encaracolado é porque devia ser liso, se sou liso é porque devia ser encaracolado. A minha portadora não gosta de de mim tal como sou. Se sou oleoso, ela seca-me até estar no deserto. Se sou fino, ela imobiliza-me com laca.

Uma vez por semana ela enrola-me em cilindros de plástico e enfia-me em capacetes de ar quente, até se me queimarem as capilaridades. E ainda assim não há forma de me encaracolar. Tenho inveja dos meus amigos do rés-do-chão.

Conheci um colega que nasceu loiro e em espiral, charmoso que só ele, mas teve o azar de germinar numa dona que gosta é de liso, por isso passa-o a ferro todos os dias. Já viu colegas seus chamuscar de dor até caírem inertes naquele que é o destino mais trágico para o fio de cabelo comum: o ralo do duche (pior ainda do que cair na comida, palavra de fio).

No dia-a-dia nunca posso respirar de alívio. Se esvoaço numa rabanada de vento, ou se ensopo numa gota de chuva, lá vem Ele: o Secador de Cabelo, essa máquina de cuspir graus centígrados que me troca as voltas e entrelaça em colegas que não conheço assim tão bem. E depois, para desfazer o nó, vem Ela: a temida, impiedosa Escova de Cabelo. Com os seus picos afiados, sedentos de genocídio capilar.

Quando finalmente me crescem duas ou três perninhas, vem a tesoura e corta-me ao meio. Volto a ser um coto, porque a dona disse que as minhas pernas eram “pontas espigadas”. Não percebo, nunca me espiguei para ninguém.

No dia-a-dia até posso parecer sedoso e brilhante, mas é à conta dos estupefacientes que me fazem tomar: o PRO-V, o extracto de camomila, a queratina e outras proteínas fortificantes. E quando chegar a idoso, branquinho e a precisar de paz, vão tingir-me de castanho-escuro, qual Michael Jackson invertido.

Nós, fios de cabelo, damos graças a Deus por não possuirmos terminações nervosas. Tal como as unhas e as pestanas, nossas companheiras de sindicato. Caso contrário sofreríamos muito, muito, muito.

Porque é que não nascemos num couro cabeludo masculino? Tão livre, tão despreocupado.

A única chatice era ter de ficar em estátua ao sábado à noite, porque o dono põe gel.

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