Uma lady na mesa, uma safada na pista

marylin

Lá fora, diz que nos tomam por mulheres “difíceis”, com alegado buço, quadris rechonchudos, filhas de Zés e Manéis. A mulher portuguesa não é demasiado provocadora, não usa demasiada maquilhagem, não abusa do salto alto.  É contida, conservadora, púdica…

… até lhe darem música. Tenho sido testemunha de um fenómeno inédito, digno de BBC Vida Selvagem, que passo a contar e espero que mude a vossa vida tal como mudou a minha. Leitores, preparem-se: a mulher portuguesa abadalhoca-se ao som de determinados hits.

Vamos remontar à decada de 80, ao grande tema das famosas Doce, “Amanhã de Manhã”. Não, não vou comentar o facto de as senhoras parecerem saídas do Star Trek. Chamo-vos a atenção para o verso mais picante da música que, por várias vezes, ouvi ser gritado a plenos pulmões por senhoras com os seus 60, respeitáveis mães de família, assíduas utilizadoras da Bimby:

“Fecha os olhos, esquece o tempo, nesta noite sem fim

Abre os braços, acende um beijo, fica dentro de miiiiiiiiiiim”

Este último miiiiiiiim em acorde agudo, acompanhado de braços estendidos, em súplica.  Oi? São ladies na mesa, mas dá-lhes para a maroteira nesta canção. Já alguém pensou neste fenómeno? Eu já.

A verdade é que com a música certa, no momento certo, a mulher portuguesa solta-se. Uma encalhada infeliz jamais anunciaria a um auditório que tem 48 anos e continua solteira (e não há mal nenhum nisso, atenção). Mas, no casamento da prima, botem-lhe o “Single Ladies” da Beyoncé e é vê-la precipitar-se em salto encarpado para a pista, a sacudir o corpanzil, pronta para o arremesso do bouquet. Um histerismo a gritar Put a Ring on It (vá lá!), nalgas a abanar no oh oh oh, oh oh oh.  Oi?

Há umas semanas atrás fui testemunha de outro episódio sobrenatural, desta feita ao som desta poesia ritmada dos Zona 5. Chama-se “Levanta o Vestido” (arruinando qualquer hipótese de ter um título sugestivo). O refrão versa assim:

“Eu quero ver qual é a cor, quero sentir o sabor

Eu sou mulherengo mas vou-te dar valor, vá lá

Levanta, levanta, levanta o vestido”.

Pois é, esta música mexe com o lado mais safadão da mulher portuguesa. Eles são mulherengos mas a nós vão-nos dar valor. Ah, então está bem Zona 5, eu levanto. A pergunta que se põe é: não deram valor às outras porquê? Porque elas se recusaram a levantar o vestido ou porque, pelo contrário, o levantaram depressa demais, as galdérias?  E já agora, qual era a cor? O carmesim está demodé.

Uma coisa é certa: isto começa a rodar e o mulheredo fica mais selvagem, dá ordem de soltura aos quadris rechonchudos, vai abaixo, vai acima, tarracha e rebola. Mais depressa levanta o vestido ali do que no lugar para o efeito, os aposentos. Há maridos a invejar os Zona 5. E com razão, porque não há fanfa que resista a trechos como “vá lá levanta o capô, o teu mecânico é bom” ou “eu serei um minotauro no teu labirinto“.

O que concluí é que a tendência é para apreciarmos a poesia musical que nos desvirtua e maltrata.  A prová-lo estão os hits como “Move Bitch, Get Out The Way”, uma comovente história sobre um gangster que quer andar e tem uma aborrecida bitch à sua frente, que não lhe concede uma passagem desafogada. Pedir licença ou, Deus nos livre, contorná-la e seguir caminho está fora de questão. Há que fazer uma canção, recordista de vendas nos EUA.

Certo é que, no momento oportuno, ponham-nos esta música na discoteca e não há quem nos imobilize. Até desejamos que nos varram da pista com um rotativo nas ventas, para fazer jus à letra. Há um efeito transformador da música nas nossas convicções feministas mais inabaláveis. Ou seja: andaram a lutar para termos direito ao voto e depois é esta pouca-vergonha.

O mesmo acontecia na nossa infância quando punham o Iran Costa. Era ver a criançada ingénua toda a cantar o Bicho, a esbracejar para trás e para a frente como quem copula, Vou-te devorar, Crocodilo eu sou. Que taradão, o Iran. E pobres nós, não tínhamos idade nem para devorar um prato inteiro de Cerelac.

As educadoras ficavam ainda mais fulas connosco quando cantávamos o famoso “Dom uana chô-di-méne”, que em inglês bem articulado se refere a este clássico bardajolas, que aposto que todos vocês conhecem.

Cheguei a levar pimenta na língua. E demorei 15 anos a perceber porquê.

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3 Comments Add yours

  1. Margarida diz:

    Não conheço esse último clássico bardajolas final… Não sou tão dinossáurica como tu!

  2. Mafalda diz:

    Ocorrem-me três manas na casa dos 60, a mais velha das quais se precipita, em todos os casamentos de família, para a mesa dos DJs, pedindo em tom que não deixa espaço à nega: “Ponham as Doce!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!”.

    Eu depois até que danço com elas, com as três manas na casa dos 60, mas garanto que me calo para as observar nos propósitos que tu, Mariana, aqui tão bem contas.

    É lindo, isto das ladies na pista!…

    1. …”Doce e sensual a mulher que abre o coração e estende o tempo, nesse tempo sem fim, abrindo os braços ao que a abraça e acende os beijos partilhados com amor verdadeiro e aroma de jasmim…

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