“É que agora mete-se o Natal e _______” (fill the gap)

Sempre achei de génio a forma como as pessoas se fazem valer das festividades natalícias para se desculparem sei-lá-de-quê.

Se é pela preguicite de não trabalhar é tão fácil alegar “ah e tal agora mete-se o Natal, as festas, a passagem de ano, vai tudo para fora”, maneiras que não há condições para fazer negócio. “Nem sequer vale a pena telefonar ao cliente, nesta altura do ano não há ninguém a trabalhar”. Do outro lado, o cliente está sentado à secretária a pensar exactamente o mesmo, enquanto coça a micose e comenta os fóruns d’A Bola. É a desculpa perfeita a começar logo ali no dia 17 de Dezembro, extensível até dia 8, 9 com sorte.

Se é pela vontade de corromper a dieta, como “Natal é só uma vez por ano”, não faz mal. Sentimo-nos mais do que nunca merecedores de uma abébia nutricional, como se o facto de Jesus nascer nos concedesse a benção de não engordar desde a manhã de dia 24 até à noite do dia 25. É quase “fofo” acreditarmos piamente que o nosso metabolismo também celebra o menino Jesus e como tal vai exterminar tudo quanto é rabanada, queijo da Serra ou peru recheado. Fazemos splashes de pão na poça de azeite onde já nada o nosso bacalhau, fazendo amonas às batatas a murro. Prometemos que só vamos comer o chapéu do Pai Natal de chocolate, mas 10 trincas mais tarde já só sobram dois coutos com botas. Mas é Natal, não faz mal.

Se é pela vontade de estoirar o subsídio, temos luz verde (ou vermelha – ho ho ho) para violentar a nossa carteira: “É Natal, é a altura do ano para dar prendas – vou dar só aos filhos; e ao marido, pronto; mas se dou ao marido tenho de dar à sogra; e se dou à sogra dou à madrinha da sogra, que é lambona; e aqui entre nós eu também mereço um mimo de vez em quando”. Exacto. Como se o subsídio tivesse um vínculo de sangue às prendas de Natal, estaríamos a conspurcar a sua essência se o usássemos para comida, saúde ou, Deus nos livre, poupança.

Uma semana de insanidade mais tarde, passou-se o Natal. Estamos em meados de Janeiro, no fervor das nossas resoluções de Ano Novo, 100% motivados para o trabalho, a dieta e a poupança e eis que… bolas, agora mete-se o Carnaval, é impossível auto-levar-nos a sério. Dançamos de lantejoulas, usamos bigodes falsos, lançamos serpentinas e é mais uma semana em que nos permitimos retroceder vários passos na evolução do homo sapienismo.

Mas depois do Carnaval é que é, mãos à obra, vamos a isso, toca a pôr tudo em ordem, contra os canhões marchar marchar até que… ai bolas, mete-se a Páscoa. Nós bem que queríamos começar a trabalhar no duro, mas com a semana santa é impossível, toda a gente sabe.

E continuamos neste processo de desculpabilização durante Maio e Junho até que UFA, podemos todos fazer uma rave à sombra da bananeira porque aí metem-se as férias do Verão. O próprio verbo “meter” dá-nos o conforto de não podermos fazer nada para evitar, elas estão aí! E toda a gente sabe que a silly season é sinónimo de exercitar a nadificação = intervalo cronológico durante o qual toda a gente aceita não fazer nada e não se importar com isso.

So on, so on, so on. Escuso de dizer que esta história do Apocalipse daria pano para mangas nesta reflexão que é o interminável “adiar para amanhã o que podes fazer hoje.”

Até me apetecia escrever, mas agora mete-se o Natal e as pessoas não lêem blogues.

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3 Comments Add yours

  1. Isso! 🙂 Gosto dessa acutilância e sim, principalmente o Natal, é desculpa para tudo!

    1. 😉 também eu tento ser sensível à idiotice no geral, e à minha em particular (bela frase digna de treinador futebolístico!)

  2. Charlie Brown diz:

    É uma boa altura para aplicar…. a equanimidade!!

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