A caixa das Manias Insólitas

Há muitas teorias sobre o cérebro masculino e feminino. Eu acho que esta do professor Mark Gungor se destaca particularmente: o cérebro masculino é formado por caixinhas – o carro, a casa, os miúdos, a bola – e nele predomina uma caixa maior que as outras, chamada “The Nothing Box”.

Nela vivem todos os momentos de não-pensamento, mais frequentes do que desejaríamos, em que os homens dispensam o contributo de qualquer lóbulo cerebral. É premir o botão ON do lado mais símio da raça masculina. Quando as mulheres já estão a deitar fumo pelas orelhas, é à The Nothing Box que os homens vão procurar, já desesperados, a data de aniversário do namoro, o presente para a sogra, o romantismo e a maturidade para não darem traques em frente à esposa (e orgulharem-se disso). O que é que encontram? Nada, pois está claro.

Ainda assim, nesta caixa as mulheres já aprenderam a mexer, pela calada, quando o homem está distraído com a caixinha da bola ou do carro. Elas fazem uma arrumaçãozinha de vez em quando, afagam com Pronto, passam um Swiffer, e de repente lá surge uma rosa para o Dia dos Namorados, um elogio ao corte de cabelo (“Reparou! Milagre!”) e a vida continua.

No entanto, a caixa onde as mulheres são verdadeiramente interditas é outra, obscura e intocável, que tenho vindo a investigar como observadora-participante no epicentro do universo masculino que me rodeia: a caixa das Manias Insólitas.

Tenho três irmãos mais velhos e considero-os cobaias representativas. Depois de quase 26 anos em laboratório de convivência lá em casa, concluo o seguinte: todos são donos da sua caixinha de Manias Insólitas. A saber:

  1. O mais velho tem a mania de deixar a roupa exactamente no sítio geográfico onde a despiu, de tal forma que as peças parecem continuar a vestir um personagem invisível, feito de ar: os sapatos alinhados lado a lado, a t-shirt impecavelmente inserida dentro da camisola de lã, as calças dispostas no chão em forma de harmónio, tal e qual a forma humana. É talento digno de Joana Vasconcelos, tão verosímil que chego a achar que faz de propósito. Porquê?!
  1. O do meio tem uma peculiar paranóia com as correntes de ar. O coração acelera, o olho treme e a fossa nasal hiperventila perante o levíssimo toque de qualquer brisa indesejada. Ele VS Vento é uma luta épica, com tácticas e utensílios próprios. À falta de melhor, combate com aquilo que tem mais à mão (não raras vezes as roupas espalhadas do irmão anterior). É ver pele de galinha em alguém e já ele se precipitou para a janela de forma irracional, urgente, para tapar as brechas com rodilhos daquilo que um dia já foi roupa e agora é trapo. Porquê?!
  1. O último irmão é fascinado por cabos. Palavra de honra. Cabos de toda a espécie, não interessa de onde vêm e o que é que ligam, desde que sejam cabos. Compra cabos, fala sobre cabos, tem machos e fêmeas, liga coisas aos cabos e cabos às coisas. Está para os cabos como o Tarzan para as lianas. No outro dia encontrámos um caixote velho dele cujo título era, nem mais nem menos, que “TRALHA”. De tão sugestivo que se fazia adivinhar o conteúdo, qual não é o meu espanto ao constatar que lá dentro estão, esperem, ó diacho, mais cabos. Porquê?!

Mulheres, não há porquês na caixa das Manias Insólitas. Agora que já sabem, respeitem e acarinhem esta caixinha, que é tão inofensiva mas de vital importância para os homens. Cabe-nos procurar nas nossas caixas, gavetas, armários e sub-compartimentos a capacidade de estar, uma vez na vida, em paz com a resposta “Porque sim”.

Boa sorte com isso.

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