Do verbo “Opinar”.

Hoje em dia parece que é obrigatório ter opiniões sobre tudo. Qualquer opinião que seja, pode ser a do comentador da televisão ou um decalque profundo da opinião dos nossos pais, o que interessa é tê-la.

Ora, eu acho que uma migalha jovem como eu, aos 25 anos, tem mais do que idade para não ter opiniões sobre tudo. Acho até que é de uma arrogância tremenda os que, aos seus 25 anos, afirmam ter as suas opiniões cristalizadas, eternas, escritas em pedra. À esquerda ou à direita, ateu ou religioso, Sagres ou Superbock. Como se 4 ou 5 décadas de vida pela frente com filhos, desamores, mortes e mil raios a sete não fossem suficientes para abalar o inabalável. Há até pessoas que parecem viver no pavor de não terem uma opinião sobre tudo – e eu conheço várias – não se lhes vá granjear um atestado de estupidez ou ignorância. Deve ser cansativo.

Ora, no processo complexo que tem sido mobilar a minha casa, tenho tido de tomar decisões diariamente: azulejos assim, ou azulejos assado? O polibã é opaco ou transparente? A cortina é em linho ou em algodão?

Senhores, eu tenho variadíssimas ideias sobre variadíssimas coisas, e a prova disso é a verborreia que sucede diariamente neste blogue. Mas, perdoem-me, não tenho opinião sobre cortinas. Não tenho. Não havia nada pré-concebido na minha cabeça que me preparasse para tomar esta decisão, chegado o momento: cortina com padrão ou cortina lisa? Ah mas depois fica muito enjoativo. Ah mas depois fica muito sem graça. Coração aos pulos e, ao mesmo tempo, o ter de lidar com a empregada da loja a fazer um ilusionismo estranho que lhe permite não mexer as pálpebras, só para poder olhar fixamente para mim, em expectativa impaciente. E eu fico ali em agonia, a folhear cortinas como quem folheia a revista VIP – sem qualquer espírito crítico, mas com ar de quem está a tirar imensas ilações por apalpar os tecidos e assentir com a cabeça, concluindo cenas sobre cenas.

Para escolher a madeira do balcão para a minha kitchenet cheguei a levar – juro-vos – dois calhaus de mármore roubados do chão, que correspondem aos tons da minha sala (branco e azul-escuro, embora a minha mãe ache que é preto e a minha melhor amiga ache que é cinzento – é o problema de ter opiniões). A questão é que jamais conseguiria decidir no abstracto. Tive de arcar com 15kg de pedra em bruto só para os colocar ao lado da madeira no expositor do IKEA e, aí sim, emitir uma opinião sobre o pandã cromático da coisa.

E nem sequer me obriguem a falar do tema sensível: o tapete. Ainda me dá arrepios. Sisal ou algodão? Quadrado ou redondo? Eu percebo tanto de tecelagem como o Guterres sobre ovulação feminina. Pêlo curto ou pêlo comprido? Para mim podíamos perfeitamente estar a falar de porquinhos da Índia.

Cada vez que me aproximava do IKEA começava a suar das mãos, com palpitações de nervoso, porque sabia que tinha de ter uma opinião sobre o meu futuro-tapete e a única coisa que me ocorria era “SEI LÁ, B*R#LHO, não pode ser um qualquer?!”

E assim foi, das quatro ou cinco vezes em que comprei um ao calhas. Desenrolava-o no ar para o estender no centro da sala,  num momento triunfante daqueles com a câmara lenta pirosa dos filmes, mas antes mesmo de tocar no chão já eu sabia que o ia devolver. Era amor de pouca dura. O amor, esse sim, foi à primeira vista com o senhor das devoluções do IKEA. Cumprimentávamo-nos de beijo ao fim do terceiro tapete.

À custa desta lambada fui condecorada “Melhor Cliente IKEA de 2011” pela mão dos meus amigos David Santos e Nádia Dinis, ora vejam:

Não é notável?

E tudo isto para dizer que, aos 25 anos de idade, ainda temos o direito de não ter opiniões sobre tudo.

Engraçado como começo sempre os meus artigos com uma nobre lição de moral para transmitir, mas acabo sempre por me ficar pelo auto-achincalhanço. Se o meu artigo fosse, por exemplo, um artigo do IKEA, devolvia-o e ainda mandava um chocho no Sérgio das devoluções.

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2 Comments Add yours

  1. Margarida diz:

    E com isto pode ser que ganhes uma redecoração grátes do teu wc, patrocinada pelo IKEA!

    1. Até pode ser que sim, mas seria um suplício ter de escolher os azulejos outra vez… eh eh eh. Abreijos mil

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