Queremos nhecos e calinadas

Desde que nos usurparam 7% da alegria de viver estamos todos a bufar. Quem não sabia bufar antes, agora já bufa com certeza. Estamos, qual infantaria de homens das cavernas, à espera que um qualquer governante desprevenido dispare a primeira bala sem querer. Se disserem que a austeridade ainda não acabou, vai haver explosão de agressividade. Se disserem que voltamos aos contos de réis, cabeças vão rolar. Se disserem “ai”, “ui”, “retiro o que disse” ou “passa-me o sal?” falecerão na mesma, vítimas de apupo.

O que quero dizer, com fraquíssimo poder de síntese, é que agora mais do que nunca estamos a fervilhar por um passo em falso. Na sexta-feira negra retiraram-nos um salário inteiro das 19h20 às 19h40. É coisa para aleijar. E nós ficámos tão arreliados que, a partir de agora, nos bastaria que um governante dissesse ou fizesse qualquer coisa de muito “lerdo”, infantil até, para o país entrar em convulsão política, aos pedregulhos e gás mostarda.

Uma gaffe em directo? Um perdigoto para a câmara? Um “gostas-te” ou “fizes-te” em praça pública?

Eu, por exemplo, seria adepta de um nhecos como aquele que o Sócrates fez ao Amado na reunião da Comissão Europeia, que até hoje poucos vi que ombreassem em vergonha alheia. Ou um escorregão ao estilo da jornalista Ana Lourenço, da SIC Notícias, quando apresentou o comentador do CDS como “Martim Broche  – Borges, perdão! – de Freitas”.  Ela que, coitada, deve ter revisto a cena 1000 vezes, em casa de pijama, a chorar e comer bonbons. Porque é excelente como jornalista mas em meio segundo uups e cá vai um Martim Felácio Freitas a cantarolar para a praça pública.

Não era mesmo o que precisávamos agora, para levantar a moral?

Eu agradeço aos céus por 1. Não ser governante e 2. Não ser famosa e 3. Não ser governante e famosa. Porque a esta gente sai-lhe um pequeno deslize, um errozinho de cultura geral ou um peidito descuidado e nós, cruéis escrutinadores da parvoíce, não perdoamos NUNCA MAIS. Se o Passos Coelho soltasse uma pérola destas neste momento, ERA O FIM. O APOCALIPSE. (ainda que desconfie que se o Pingo Doce anunciasse um dumpingzinho ao mesmo tempo era coisa para abafar.)

Todo este raciocínio surge porque, para quem não sabe, eu sou a verdadeira embaixadora das gaffes e das saídas inconvenientes. E ainda ontem fiquei a rir sozinha porque, ao querer descrever uma enorme pilha de pratos sujos que deixei no lava-loiças, resolvi anunciar que em casa deixei uma grande “pila de loiça”. Até fiz o gesto com os braços para mostrar o tamanho.

E agoram imaginem se eu fosse famosa.

E do PSD.

Em directo para a SIC.

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2 Comments Add yours

  1. José M Seruya diz:

    pila de louça… hhmmm… Bordallo Pinheiro, quiçá. Ou Caldas. OK. Pilas: para que vos quero?!?

  2. sara seruya diz:

    Semconseguir ser tão piadética e tão ousada como o tio Zé, pois não posso deixar de dizer que gozei à ufa com este bumba na fofinha – ou bunda, ou lá o que é de aparentado com o vocábulo… Keep up the good work, filhota – ai o orgulho de Mãe é uma coisa muito bonita e desculpada…

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